Animal migratório

Hoje eu acordei e foi difícil colocar os pés fora de casa
Eu não queria estar aqui
Tentei não pensar nisso, afinal, logo estarei em outro lugar
Uma conversa
A certeza de que eu preciso estar em outro lugar
Me chamam
Meu espírito sente
Precisam de mim lá
E eu preciso estar lá
Essa tristeza toma meu peito
A urgência de fazer o que tenho que fazer
Meu estômago fica embrulhado
Chorei
Chorei novamente
Com coisas bobas
Com coisas importantes
Com lembranças
E com o que eu quero fazer
E a chuva parou
Mas as lágrimas não.

Tudo me faz pensar em meu animal migratório. Sou um espírito livre. Minha alma quer liberdade. Liberdade para experimentar as diversas possibilidades dessa vida. Tenho fome de experiências. Que parecem vir quando há mudança de espaço. E ao mesmo tempo as mudanças me trazem ansiedade. Ansiedade que me traz tristeza. Ansiedade que me dá um nó no estômago.
O que viemos fazer nessa vida? Você já se perguntou isso?
Muitas vezes me parece que vim ajudar determinadas pessoas. Me parece que muitas vezes não cumpro minha missão por não ficar tempo suficiente perto delas.
A contradição. Será a missão de um animal migratório ajudar determinadas pessoas?
Já estive em muitos lugares. Só em dois desejei ficar. Justo os dois mais transitórios e sem possibilidades (aparentes, pelo menos) de habitar um pouco em forma pouco árvore. Nunca serei uma árvore completa. Terei que fazer curtas migrações. Mas um dia, em algum lugar, permanecerei. Essas migrações serão muito breves.
Agora um desses dois lugares me chama. Minha intuição me diz que estou fazendo o certo. O que me aflige?
Logo migrarei novamente. O que me aflige ainda mais? Não sei para onde. E o que mais me aflige? Migrarei sozinha.
Família. As pessoas que escolhemos antes de vir. Queria que pudessem migrar comigo, sempre. Como os gnus, caribus... lobos que caçam juntos.
Essa contradição. Essa necessidade de migrar. Essa necessidade de estar com as pessoas importantes da minha vida. Agora é tarde porque há pessoas importantes em muitos lugares. Efeito colateral da vida migratória.
Dia difícil. Tenho que ir mais uma vez. Tudo perde o sentido. Tudo ganha sentido. Aperto no peito. Embrulho no estômago. Lágrimas nos olhos. E agora, com o céu negro e a partida da chuva, só gostaria de me sentir segura. Mas a segurança que eu gostaria de sentir está muito longe. Fora de alcance. Para sempre. Em um dos lugares que me fizeram querer ser um pouco árvore.

PS: biólogos invarialvelmente tendem a ter a mente contaminada por Biologia, a se ver como os animais que somos e a se inserir na Natureza.

Comentários

Madame disse…
Um dia maravilhoso para vc querida!

bjus

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